A bolha digital faz com que você se iluda achando que todo mundo pensa a mesma coisa

Viver em uma bolha digital é um perigo. Ela funciona como um espelho, no qual as opiniões com as quais concordamos se refletem e se replicam. Nos da a sensação de que “todo mundo pensa a mesma coisa”.

A bolha começa a se formar de duas maneiras: quando deixamos de seguir ou retiramos da lista de amigos quem não concorda conosco; quando o algoritmo da rede social passa a entender o que curtimos, amamos ou do que rimos. Nos mostrar somente coisas que nos alegram e pessoas com quem interagimos com frequência é uma forma de nos fazer ficar cada vez mais tempo conectados e, com isso, permitir que nos entreguem anúncios cada vez mais próximos aos nossos desejos. Esse é o modelo de negócio das redes e a bolha nos torna ainda mais rentáveis.

O risco maior dessa bolha é que passamos a consumir notícias e informações filtradas por ela. Perdemos a noção da realidade, do todo. Passamos a replicar sem pensar muito porque um amigo em quem confiamos compartilhou um link que nos mostra exatamente o que queremos ler ou ver: de gatinhos fofos ao nosso político favorito.

Em geral, a bolha nos emburrece e por isso precisamos lidar com sabedoria: da pra bloquear aquele amigo que compartilha Revoltados On-line sem pena. Da pra desamigar todo e qualquer seguidor do Bolsonaro. Da pra parar de seguir aquela pessoa que publica uma cura para o câncer por semana. Da pra esconder a página de frases feitas daqueles que fazem uma reza virtual todos os dia para ter tempo de sobra pra xingar a vizinhança por que o menino se apaixonou por outro e a menina se encontrou em uma pele masculina.

Bloqueie, desamigue, oculte: faça isso sem pena. Só não esqueça de ler notícias que ajudem a entender o porquê de essas pessoas se comportarem assim. Se fizer esse exercício de entender o mundo diariamente, deixe-se seduzir pela bolha.

Esta semana me dei conta que criei, para mim, um universo virtual civilizado e feliz: todas as publicações que apareceram na minha linha do tempo falando sobre o caso do menino que teve o rosto tatuado à força, condenavam os bandidos que torturaram o jovem. Não apareceu um único “bandido bom é bandido morto” e ninguém, até agora, sugeriu que, se eu tivesse pena, que levasse pra casa.

Isso me confortou: a bolha é perigosa sim, no entanto também ajuda a mostrar que há muita gente que pensa se formas diferentes, mas que se une em defesa de direitos civis igualitários. Existe gente boa e sensata no mundo mesmo entre aqueles com quem não concordo. Gente que acredita na justiça feita por meio de procedimentos que garantam o pleno direito à defesa. Gente que não faz trocadilhos toscos sobre direitos humanos. A bolha pode destruir, mas tem horas que ajuda a te salvar…

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