Cuidado! Depois vão dizer que você teve sorte! E teve sim. O sucesso não é só mérito seu

Cuidado! Depois vão dizer que você teve sorte. Essa maldida frase, repetida como um mantra dos meritócratas, aparece dia sim e dia também nas minhas redes sociais. Mais frequentemente em português, o que me leva a uma análise nada científica de que os brasileiros acreditam nela mais do que os indivíduos de outros lugares em que os sistemas de bem estar social são mais desenvolvidos. Também já vi adaptações para o vidro do carro, para-choque de caminhão, camisetas e afins. E vou dizer que essa frase me irrita profundamente. Sabe por quê? Porque se eu estou aqui, agora, escrevendo isso, é porque eu tive uma sorte danada. E para alguns, que preferem juntar crenças religiosas como a cereja do bolo, devo dar graças a deus.

Apesar dos sonoros “deus te abençoe” cada vez que saio do Brasil, não é preciso ir longe pra descobrir que, ser abençoada – no sentido de ter uma proteção para que tudo aconteça – não tem nada a ver com uma entidade divina. É mais uma soma de fatores sócio-políticos e econômicos que alguns chamam de sorte. Apesar de ser mulher e nascida em um país de terceiro mundo, o que estatisticamente me coloca em desvantagens na corrida pelo sucesso, as duas coisas tem um menor peso porque sou cisgênero e branca. Além disso, venho de uma família com dinheiro para livros, acesso à informação e não sou a primeira de casa a ter educação superior. Não fui eu a quebrar o ciclo.

Nunca me faltou comida, roupa, segurança. Estudei em escola pública a maior parte dos anos, mas em uma cidade com um IDH mais próximo da Europa do que do Brasil. Fui trabalhar na adolescencia para “ter o  meu dinheiro” e não para pagar as contas da casa e nem para sustentar uma criança nascida de uma gravidez indesejada por não ter controle sobre meu próprio corpo. Tive acesso à universidade, a um mestrado, a um doutorado e, um bom emprego, foi a consequência disso.  Nada disso veio do céu: porque é engraçado alguém acreditar em uma divindade que privilegia quem mais tem e se satisfaz com o sofrimento e as dificuldades de quem tem menos. Nessa história, eu só fiz a minha parte em um roteiro pré-determinado de educação, bem-estar social e segurança.

Trabalhei duro para chegar até aqui? Muito menos do que a grande maioria teria que trabalhar. Claro que abri mão de ter coisas e privilegiei o ser: busquei conhecimento e não bens materiais. Deixei para trás amigos, família, senti saudades, sai da minha zona de conforto. Aprendi novas línguas e isso custou horas de estudo e dedicação. Cozinhei em casa enquanto meus amigos iam a restaurantes. Morei em um abrigo estudantil enquanto acompanhava as férias dos conhecidos pelas fotos. Passei meses gelados e escuros escrevendo teses, papers e artigos, lendo livros técnicos e publicações científicas enquanto queria mesmo estar na praia tomando cerveja e lendo ficção. Mas nunca me falou o essencial (teto, comida, saúde) e eu sempre soube que, se tudo desse errado, teria para onde voltar.

Eu já saí, na linha de partida, com quilômetros de vantagem o que torna o meu esforço em vencer a corrida muito menos louvável. E isso não é falsa modéstia. É só pensar nas histórias das crianças que encontraram livros no lixo e chegaram a universidade estudando por eles. É só pensar na história do porteiro que se formou. É só ver a notícia da transexual que defendeu um mestrado. São casos tão raros que são dignos de nota porque para essas pessoas, que largaram muito atrás da linha que estipula o mínimo necessário, vencer a corrida é quase impossível.

Quando um homem, hetero, branco, filho de profissionais liberais, fluente em inglês depois do intercâmbio pago pelos pais, exibe as chaves do carrão e do apartamento e acha que trabalhou duro para isso, que as conquistas são méritos seus, me embrulha o estômago. E não por inveja. Fico siceramente feliz com aquilo que os outros conquistaram honestamente, mas não me venha com o discurso da meritocracia. Pare de ler auto-ajuda, demita seu coach (eu detesto essa palavra!). Vá ler livros de economia, política e sociologia e, se tiver acesso a eles, saiba que já é um privilégio. E então, se um dia alguém disser que você teve sorte, admita, você teve mesmo, porque nasceu em um cenário que te permitiu chegar na frente sem correr muito. Meia dúzias de passinhos trotando não contam como uma maratona. O único mérito está em usar ou não essas vantagens para completar a corrida: o resto é sorte mesmo.

 

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